Monday, November 21, 2005

Anônimos Unânimes e o Real Madrid

Nas muitas vezes em que joguei futebol em minha vida, 95% delas com meus amigos de coração, costumava sustentar uma visão bastante pragmática. A vitória era um objetivo tácito, não era buscado com furor ou injustiça, mas desejado por uma vontade individual coletivizada. Trocávamos olhares como se disséssemos o que queríamos, mas não entrávamos pressionados. Por vezes, no entanto, a vontade individual, muito infelizmente, implicava falhas táticas, indisciplina(verbal e comportamental) em relação ao grupo e, o mais freqüente, erros resultantes das melhores intenções. Um amigo do grupo, cujo nome será preservado não por razões éticas, mas para que alguns leitores tenham um prazer investigativo ao tentar adivinhar, costuma dizer que ninguém erra porque quer. o risco do erro, contudo, é sabido quase sempre e, à exceção de momentos em que a bola nos supreende, surpreende a defesa e até quem fez a jogada, ou seja, uma circunstância meramente física e imprevisível, temos poucos segundos para, no mínimo, evitar o revés. A complexidade(e a graça) do futebol reside nessa soma imprevisível de variáveis, de possibilidades que fazem desse esporte uma arte diferente cada vez que se pratica, um conjunto de possibilidades fascinante. Quanto a isso, todavia, não existe uma moral que define o certo e o errado quando o objetivo principal é fazer algo importante dentro de campo, do gol de placa ao desarme providencial, tendo em vista sempre a vitória, que pode vir ou não, cabe dizer.
Mas quando percebemos que a diferença básica entre um gol levado e um gol marcado está no aumento do grau de dificuldade de se conquistar uma vitória, temos a certeza de que nossa principal briga é pela manunteção da diversão, pela feliz possibilidade de se continuar correndo, chutando, reclamando, colocando bolas na trave, suando e, numa conseqüência comum, ganhando. Uma vitória traz sempre o prazer da superação, e um gol marcado, feio ou bonito, mas honestamente marcado, nada mais faz que eternizar nosso tempo em campo, prolongando a diversão da qual não se deve abrir mão. Talvez eu esteja dando uma perspectiva derrotista demais para um time que já venceu a maior parte do que já disputou, ou quiçá esteja, com essa relativização, valorizando simplesmente o caráter pueril e inocente de nossas modestas intenções com o futebol, que quase sempre nos trazem glórias, sempre mais coletivas do que individuais. Esse êxito, logrado sem nome - porque até hoje o time realmente não tem nome -, redimensionou um conceito único: o da amizade. Para os amigos do Jappah, somos o time do Jappah, para os amigos do Bazza, somos o time do Bazza, para os amigos do Zeh, somos o time do Zeh. Temos vários nomes, porque nosso nome não é tão importante como a unanimidade do time. Para nós, sobretudo dentro de campo, somos apenas amigos, anônimos unânimes quando falamos a linguagem do futebol. Fraternamente inderrotáveis, porque fazemos do jogo um coletivo. Sempre.
E onde é que o Real Madrid entra nessa história? O Real Madrid não entra nessa história.

Wednesday, November 16, 2005

Um clichê básico

Poder e liberdade aparentam ser mutuamente excludentes. Isso porque, muitas vezes, o poder é simplificado ao exercício da força, e a liberdade, conceito deliberadamente dilatável, transcende seu caráter humano para beirar a fronteira da libertinagem. A democracia, no entanto, pressupõe uma associação ponderada entre esses conceitos, definindo sua linha de atuação para os interesses do povo. Quando analisamos o contexto brasileiro, percebemos qual caminho tem assumido a noção de poder e que uso tem sido feito da liberdade, sobretudo em relação à política externa e à construção de uma identidade global em face de outras nações e estados. Cabe refletir em que medida a associação entre esses pode construir uma soberania que, mais do que suplantar a importância de outros países, como faz o maniqueísmo norte-americano, consolide nossa auto-suficiência em um espaço justo dentro do processo de globalização.
Muito antes de o clichê comodista "Brasil: país do futuro" ser repetido exaustivamente nos primeiros anos de efetiva(sic) democracia, um país com um passado esquecido e com um presente inalcançável ainda sonhava em concretizar uma utopia política, social e econômica coerente com sua sempre proclamada grandeza natural. Todavia, nosso potencial para ser grande não se era gigante como nossa própria natureza e, na conjuntura atual, tudo em que acreditamos passou a ser tão obscuro quanto o futuro tão sonhado. A liberdade com que tanto se sonhava passou a mascarar uma opressão ferrenha que, sob a lógica capitalista, nos relegou à condição de terceiro-mundo, fazendo-nos cair num paradoxo ideológico: somos melhores ou piores?
Muito provavelmente, nos enxergarmos melhores pode ser tão pior que inferiorizar o que temos de melhor. Nossas riquezas, o petróleo nosso(e a nossa refinaria), e a magnitude cultural que nos singulariza, de fato, nos fazem presos voluntários e orgulhosos ao nosso país . Entretanto, nem todos os sabiás têm gorjeado em português em nossas terras, e tampouco todas as nossas palmeiras têm estado fortes o suficientes para suportar ventos(e tornados) da globalização. A identidade cultural necessária à liberdade legítima sobre a qual o texto fala não encontra estímulo político-econômico ou
respaldo social para sustentar sua grandeza. Nossa mistura é forte, mas quem se interessa por entendê-la ou valorizá-la? Nem quem vos escreve se admite pró-brasileiro o suficiente para viver sua inegável brasilidade...
Em contraposição ao nosso ateísmo patriótico, assistimos ao resplandecer de China e Índia, grandes promessas(que em breve muito provavelmente serão cumpridas) no contexto geopolítico multipolar. Não são países como a Utopia, de Thomas More,
portanto, são repletos, em diferentes proporções, de problemas como os nossos, ou até mais graves. São nações em que latejantes conflitos internos, como demografia ou disputas étnico-religiosas, vitimam milhares de pessoas que acabam excluídas do mundo sem ao menos ter consciência do que seria o país em que vivem ou, meramente, do que seria um país – isso também acontece no Brasil. Mas qual seria a diferença básica entre o aproveitamento de suas capacidades como nação e a inércia que caracteriza a evolução quase estática do Brasil como estado? Poderíamos atribuir à liberdade o estereótipo de causa do sucesso? Complexo. Seria fácil atribuir ao determinismo religioso do hinduísmo as causas da miséria dos indianos ou ao socialismo de estado (semi)democrático chinês a causa para o cerceamento da liberdade individual e coletiva. Não seria fácil, contudo, entender por que essa liberdade brasileira, que tanto nos soa bem, que tanto nos faz olhar para o Oriente com ar de superior, não faz de nós melhor e um povo mais consciente, posto que não estamos subordinados a nenhum aparelho político ou religioso legitimamente coercitivo, como os da Ditadura declarada de décadas atrás. Nenhum tratado, em face das gritantes diferenças entre esses três países, seria capaz de ser categórico conclusivo. Nossa multiplicidade complexifica nossos problemas.
Percebemos, então, o quão falsa é a sensação de liberdade proporcionada por essa idolatrada democracia. Temos vergonha de olhar para o mundo e ver que nossos vãos esforços percorrem erradamente o melhor caminho. Verificamos que nossa indisciplina como cidadãos e brasileiros contrastam com os critérios muito bem estruturados das sociedades orientais: dignidade, desenvolvimento social e econômico atrelados e, sobretudo, respeito. Esse último, princípio básico de qualquer religião legítima, revela nosso maior déficit, ao passo que em nossa imensa gama cultural, vemos a froteira entre diversidade e desigualdade sendo diluída. No Brasil, a riqueza econômica tem definido nossos rumos sociais e políticos, usando como mola aqueles que deveriam gozar dos mesmos direitos de uma elite parasitária e individualista. Nossa reforma interna ainda será utópica enquanto estivermos olhando para fora e para dentro do país sem o tom crítico com que deveríamos avaliar nossa própria consciência individual. Que nossa liberdade individual seja repensada a ponto de torná-la um ideal e um bem coletivo, socialmente congruentes e concretos. "Isso aqui é Brasil". Que essas frase saia das filas de banco e chegue orgulhosamente ao mundo.

Monday, November 07, 2005

Só um poema só

Puta merda...
Isso lá é maneira de se começar um poema?
Quem se importa
Se a porta de nossos corações não tem pudor?
Cuspo a vida, como se fosse mero conhaque
Porque desconheço minha ignorância
Como se andasse de fraque no Cairo

Quem quer saber de mim
se nem eu quero saber de mim?
Ouso apenas sugerir um pouco
dessa pouquidão que me apequena
e dessa pequena que me pouquifica
nessa ilustre e implacável solidão

Quem está puto? Ninguém está puto aqui...
Quem torce pela vida como eu torço pela morte?
Quero morrer poeta, porque nascer é um parto
Parto que me pariu, num dia de chuva
nublado como meu presente futuro

Estou só
E só

Wednesday, November 02, 2005

Music: just do it

Todo mundo tem uma música. Aliás, sendo muito mais preciso, todo mundo tem várias músicas, para vários momentos e sentimentos. Quando a letra não interessa, mas a melodia fala por tudo, ou quando a letra, numa música desconhecida, nos pega desatentos em relação ao mundo, precebemos invariavelmente que algo parece ter sido cantado para nós. Esta semana, ganhei uma fita de vídeo do Van Halen, uma banda conhecida por um rock meio "farofa" e fanfarrão, mas que produz um som animado e explosivo, como bem ilustra a música "Jump", afortunadamente aproveitada para tema das extintas Olimpíadas do Faustão. Eis que na cozinha, absorto em meus pensamentos, reparo na música ao fundo. Nunca a tinha escutado, tampouco acreditaria que pudesse ser do Van Halen, muito menos que ela pudesse produzir algum sentido em mim. A letra falava sobre "aliens", mas o assunto, claro em seu título, era bastante humano. Estava ouvindo "Love Walks in". Via aqueles metaleiros adaptando suas características violentas a uma melodia covardemente tocante. Parecia que tinham decidido parar de ser maus, "badboys do barulho", predispondo-se a amar. O holandês Eddie Van Halen, considerado um dos maiores guitarristas da história, deslizava sua mão pelo teclado como se lembrasse de sua primeira namorada. Seu irmão, Alex, tocava bateria com pudor, como se fizesse a coisa mais solene do mundo. O agitadíssimo baixista Michael Antony fazia o back vocal como se cantasse pela última vez em sua vida, e Sammy Haggar, outrora - no show, inclusive - um metaleiro enlouquecido em sua música xiita, fazia da música, com a rouquidão de sua voz, um hino. O que aconteceu a eles? O que Gene Simmons, baixista do endiabrado Kiss e um dos grandes responsáveis pela projeção a que chegou o Van Halen, acharia daquele envolvimento que eu estava presenciando? Fiquei emocionado, quase como se visse um israelense abraçando um palestino, ou um flamenguista chamando um vascaíno para jogar futebol, no lugar de prestigiar de maneira radical os profissionais que não merecem atenção. Por mais que o rock pesado continuasse dali em diante, estava admirado com o fato de, em um momento ao menos, eles terem aberto espaço, no repertório e na vida deles, para algo mais sublime, mais digno de reflexão. A música é a porta da alma. Ela quebra aquela frieza das palavras escritas, humanizando-as pela voz proferida e por um som expressivamente pensado. Tive vontade de nascer Chico ou Cazuza. Ou de ser Van Halen, pelo tempo em que ouvi e pensei minha vida ao lavar um prato.