Anônimos Unânimes e o Real Madrid
Nas muitas vezes em que joguei futebol em minha vida, 95% delas com meus amigos de coração, costumava sustentar uma visão bastante pragmática. A vitória era um objetivo tácito, não era buscado com furor ou injustiça, mas desejado por uma vontade individual coletivizada. Trocávamos olhares como se disséssemos o que queríamos, mas não entrávamos pressionados. Por vezes, no entanto, a vontade individual, muito infelizmente, implicava falhas táticas, indisciplina(verbal e comportamental) em relação ao grupo e, o mais freqüente, erros resultantes das melhores intenções. Um amigo do grupo, cujo nome será preservado não por razões éticas, mas para que alguns leitores tenham um prazer investigativo ao tentar adivinhar, costuma dizer que ninguém erra porque quer. o risco do erro, contudo, é sabido quase sempre e, à exceção de momentos em que a bola nos supreende, surpreende a defesa e até quem fez a jogada, ou seja, uma circunstância meramente física e imprevisível, temos poucos segundos para, no mínimo, evitar o revés. A complexidade(e a graça) do futebol reside nessa soma imprevisível de variáveis, de possibilidades que fazem desse esporte uma arte diferente cada vez que se pratica, um conjunto de possibilidades fascinante. Quanto a isso, todavia, não existe uma moral que define o certo e o errado quando o objetivo principal é fazer algo importante dentro de campo, do gol de placa ao desarme providencial, tendo em vista sempre a vitória, que pode vir ou não, cabe dizer.
Mas quando percebemos que a diferença básica entre um gol levado e um gol marcado está no aumento do grau de dificuldade de se conquistar uma vitória, temos a certeza de que nossa principal briga é pela manunteção da diversão, pela feliz possibilidade de se continuar correndo, chutando, reclamando, colocando bolas na trave, suando e, numa conseqüência comum, ganhando. Uma vitória traz sempre o prazer da superação, e um gol marcado, feio ou bonito, mas honestamente marcado, nada mais faz que eternizar nosso tempo em campo, prolongando a diversão da qual não se deve abrir mão. Talvez eu esteja dando uma perspectiva derrotista demais para um time que já venceu a maior parte do que já disputou, ou quiçá esteja, com essa relativização, valorizando simplesmente o caráter pueril e inocente de nossas modestas intenções com o futebol, que quase sempre nos trazem glórias, sempre mais coletivas do que individuais. Esse êxito, logrado sem nome - porque até hoje o time realmente não tem nome -, redimensionou um conceito único: o da amizade. Para os amigos do Jappah, somos o time do Jappah, para os amigos do Bazza, somos o time do Bazza, para os amigos do Zeh, somos o time do Zeh. Temos vários nomes, porque nosso nome não é tão importante como a unanimidade do time. Para nós, sobretudo dentro de campo, somos apenas amigos, anônimos unânimes quando falamos a linguagem do futebol. Fraternamente inderrotáveis, porque fazemos do jogo um coletivo. Sempre.
E onde é que o Real Madrid entra nessa história? O Real Madrid não entra nessa história.
