Um feto lispectoriano
Esbarrei comigo um dia desses. Adorei. Fazia tempo que não me via, fazia tempo que eu não tinha aquela conversa gostosa. Nos desbotados tempos de minha infância, costumava conversar comigo quase todo dia. Entre um golpe de meus bonecos e um espirro irritante de minha alergia, sempre era feito um comentário, sempre uma ponta de esquizofrenia pueril escapava de minha boca já inocente. Quanto de mim eu descobria nesses diálogos? Quanto de verdade eu dizia a mim mesmo? Hoje, com um pouco mais de leitura, tenho certeza de que comia minhas próprias baratas, que, pelo menos em meus infinitos momentos, eu era estrela de minhas horas. Nunca esqueço aquelas conversas que desafiavam minha inteligência, que me chamavam de burro sordidamente e riam de uma obviedade que só eu os bonecos não viam. Na minha cabeça, sempre fui convencido de que dois e dois totalizavam cinco, mas o diálogo sempre ia além: o que, afinal, é cinco? Meu cinco virava quatro, às vezes seis. A conversa só não deixava que o cinco permacesse cinco.
O mundo rodava como meu ventilador de teto bem ilustrava. Deixava-me tonto essa tonteira de ser criança. Deixava-me criança toda essa lembrança de tonteira, de esperança. A idade da descoberta, que debatia comigo como se eu fosse um adulto prematuro, ensinou-me a ouvir, a enxergar, menos a falar. A hora de falar seria mais tarde. Mesmo assim, ensinou-me a conversa, o discurso deveria vir depois do enxergar, depois do ouvir. Sempre foram duas orelhas, não? Acho que ouvi muito bem o que a vida me fez ver. Agora, só pelo silêncio, posso falar.
O mundo rodava como meu ventilador de teto bem ilustrava. Deixava-me tonto essa tonteira de ser criança. Deixava-me criança toda essa lembrança de tonteira, de esperança. A idade da descoberta, que debatia comigo como se eu fosse um adulto prematuro, ensinou-me a ouvir, a enxergar, menos a falar. A hora de falar seria mais tarde. Mesmo assim, ensinou-me a conversa, o discurso deveria vir depois do enxergar, depois do ouvir. Sempre foram duas orelhas, não? Acho que ouvi muito bem o que a vida me fez ver. Agora, só pelo silêncio, posso falar.

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