Sunday, December 23, 2007

Qual das Novas?

Qual das Novas?
Surgiu uma vontade de pensar a felicidade. Diferentemente de todos os autores que arrecadaram dinheiros de felicidade ao escreverem os livros de auto-ajuda, em momentos que, por estarem muito felizes, não enxergam os problemas dos outros como tão graves, eu acredito que o caminho para essa utopia tão mensurável é binomial, como quase tudo que existe. Em meu "bom-péssimo" português, isso significa que a medida da felicidade é fundamentalmente circunstancial, com um inalienável "q" de química e, "più che tutto", resume-se a não estar infeliz. Elementar, Watson? Watson?
Minhas vagas noções de capitalismo permitem que eu presuma que o sucesso de tantos produtos que promovem a felicidade, das páginas do Paulo Coelho aos produtos do Shoptime, não são um reflexo assintomático de que o mundo está infeliz. Seja pela falta de insegurança, pelo medo do Bin Laden ou pela campanha do Corinthians, o mundo não se sente feliz, desejando avidamente a plenitude. Mas de quê? Essas linhas mequetrefes fariam ainda menos sentido se eu não me lançasse o desafio de afirmar que o mundo se nega a dizer que é infeliz. Tudo, paparazzi, menos fotografar o ruim ou o baixo astral crônico, muito menos o da Xuxa. As fotos têm negativos, e não são aqueles rolos com cor de calda de caramelo. Somos nós, que continuamos a jogar na matéria nossas mais intransmissíveis experiências sensoriais. Um barulho de caixa registradora das antigas soaria coesivamente bem.
Voltamos à época do Imperialismo. O dinheiro não traz felicidade, manda buscar. De helicóptero. Há quem diga que isso se fundamenta pelo fato de ser melhor chorar em Nova Iorque do que em Nova Iguaçu. Nada contra nenhuma das novas que bem conheço, mas o preconceito e a Missão Civilizadora do Homem branco(não-cotista) voltaram com força total, verbal e bossal. Direto ao ponto: quem é que se considera alguém para se atrever a mensurar o que é a felicidade do outro- além da Mídia ou do setor de responsabilidade social das grandes empresas? O que é Nova Iorque para quem nasceu em Nova Iguaçu, e o que é Nova Iguaçu para o Robert de Niro? Qualquer comparação estúpida é redundantemente estúpida. Faz parte de nossa sociedade julgar. Até os ricos que querem sustentar o status do poder de consumo o fazem. Isso vem da força e do hábito pobre de comparar os preços, escolher o mais caro com e alimentar a necessidade doentia de se sentir em destaque. Dá pra ser feliz assim?
Vivemos todos num Big Brother, e somos vigiados o tempo inteiro por todos. Menos por nós mesmos. A construção de nossa identidade se resume a tatuagens, a gírias, a roupas e a tudo que, no binômio da vida, faz com que nos sintamos um pouco mais especiais do que aquilo que somos quando viemos ao mundo, por sinal, sem um pingo de personalidade. Acreditam que Einstein nasceu da mesma maneira que o aluno de qualquer escola ruim das Novas Iguaçu e Iorque? Acreditam que Madre Teresa de Calcutá e Adolf Hitler de Branau gorfaram da mesma maneira e zuniram o prato de papinha na babá? Tenham fé nisso.
Somos iguais em origens, mas diferentes em vida e, portanto, em comportament e em parâmetros de felicidade. Retire a mão do mouse e levante a mão quem já sonhou em fazer uma loucura. Agora, só quem sonhou e fez a loucura. Agora, quem pensou muito antes de fazer a loucura ou avaliou os riscos dessa loucura. Por último - juro -, quem teve a feliz audácia de sorrir do próprio desejo e do fato de imaginar por que chamar um desejo, que é seu, portanto, é humano, seria loucura. Não há necessidade de haver medo da barbárie, dos manés de Columbine ou de todos aqueles que, ao nos colocarem em risco, acabam por comprometer o escasso tempo que nós temos nesse planeta para sermos felizes. Quantas privações devem ser impostas a qualquer ser humano, biologicamente dotado de desejos gastronômicos, sexuais, afetivas e outros - põe outros nisso! -, para que ele se torne justamente a escória que tanto tememos? Isso varia de pessoa para pessoa, mas uma coisa é fato, e quando eu utilizo o termo "coisa", e tiro 0,5 ponto de minha credibilidade como aventureiro da escrita, é porque a coisa é abstrata mesmo. Coisificando: o ser humano é um animal dos mais típicos, e só perde o rumo para a sua satisfação quando a sociedade - com minha ajuda, inclusive - passa a privá-lo de tudo aquilo que é necessário para sua sobrevivência digna. Sobrevivência digna é a felicidade. Anotem isso em uma nota de 100 reais.
Só sabemos o que é a felicidade quando gozamos da experiência da não-privação, o que, atualmente, é amplamente apresentado como conforto, luxo e abundância, além do clássico requinte e bom gosto. Nessa ordem, por favor. O que representaria um esplendoroso passeio pela Lexington para um morador de Nova Iguaçu? O que representaria um maravilhoso churrasco de confraternização, com direito a futebol, para um turista que ouviu dizer que ir à Nova Iorque é o apogeu de quem caminhou por esse mundo? Isso equivale a comparar Michel Preudhomme com Michel Platini. Enquanto surge a distração com vagas semelhanças entre os nomes, quem pára e pensa sobre a finalidade de se compará-los? Quer goleiro ou atacante, suco ou refrigerante, Búzios ou Petrópolis? Ou meio de campo, água mineral ou ficar na sua casa?
Há de tudo no mundo, e só os nossos medos justificam nossa crônica falta de talento para saber o que nos faz felizes. Se você estiver se sentindo infeliz(cara, essa frase é vende muito!), lá vai a dica que, de tão simples, eu não teria coragem de cobrar a fortuna que ela vale: faça tudo que trouxer prazer. Se você conseguir sorrir sozinho com isso, sem fazer ninguém chorar, sorria mais ainda. Você acabou de investir em sua existência e gozar do indescritível fato de poder realizar algo que te deu vontade. Faça um Big Brother de si, e avalie o que na sua vida é capaz tirar o prazer de te fazer ir adiante, e de perder o tempo sem agradar quem você ama, ou pegar uma bola de futebol e dar um chute totalmente descompromissado. Ou comer. Ou - perdoem-me os médicos alarmistas - coçar uma região do corpo até o momento em que se decidir procurar um dermatologista. Ou parar de ler esse texto aqui.
Quando nascemos, nosso cronômetro é acionado. É um cronômetro perfeito, estável, sem influências terrestres e da mesmíssima marca daqueles que se usam nas Novas Iguaçu e Iorque. Faça o que tem que ser feito e não peça a opinião subersiva de amigos, anúncios ou bem intencionados. Nunca ninguém se foi sem cumprir sua missão. Não se prive dela, e ignore o fato de esse texto estar reduzindo em ínfimos valores os percentuais de vendas de livros de auto-ajuda. Isso significará, no máximo, uma quedinha na Bolsa de...