Monday, July 25, 2005

"Recordar é escrever".

Ponte da Amizade

Mesmo não havendo a intenção de desmerecer o ônibus e sua relevância como transporte e, de certa forma, personagem urbano, o metrô revela-se um mais adequado retrato da dinamicidade contemporânea. É até comum, em documentários sobre grandes metrópoles, ao som do significativo hit Under Pressure, aparecer aquele desespero individualista, que é o correspondente macroscópico a espermatozóides em luta por fecundação. É nesse cenário(do metrô) que milhares de cariocas diariamente vivem momentos imediatamente anteriores à lida ou à execução de tarefas que compõem um atribulado cotidiano. E é visando a compor o meu que, numa Quarta-feira dessas, tomei a iniciativa de ir ao centro da cidade e comprar algo que me faltava. Na Uruguaiana, cuja qualidade e, muitas vezes, a origem do que é vendido justificariam a denominação mais adequada de “Paraguaiana”, creio que poderia alcançar meu objetivo. Em meu caminho, estava o metrô, uma Ponte da Amizade com ar-condicionado e livre de assaltos, pelo menos quando não se está comprando o bilhete .
Em todo caso, lá estava eu, enchendo um vagão semilotado. Em torno de oito horas, a rotina já dava “Bom dia” e, limpando cada remela como se fossem lágrimas de preguiça, cada carioca se lembra de que há uma realidade a ser vivida, para muitos, a ser vencida. As olheiras de fadiga nos rostos segundafeirizava os presentes e os fazia regredir de pessoas a triste e artificial condição de passageiros. A frieza de Matrix subiu-me pela espinha e desviou o meu olhar antes fixo no nada ou em algum ninguém. Notei, então, a senhora de pé ao meu lado. Com várias bolsas e uma mala falante que tinha lá seus sete anos, olhava para o além, parecendo meditar com o arranhar nos trilhos. O menino, não menos distraído, olhava-me de maneira vacilante enquanto cantava algo ininteligível. O trecho, por menor que seja, é sempre tedioso e equivale a um andar horizontal de elevador, sobretudo pela indiferença das expressões faciais que deixam o ambiente com um vácuo desagradável. Do meu outro lado, um homem de terno e de gel, engravatado de orgulho e lamentando por estar andando de coletivo, observava-se narcisicamente no reflexo negro da porta fechada. Enquanto o metrô preparava sua parada na estação, vi seu pedantismo wallstreetiano ser quebrado pela visão de uma subdesenvolvida e alaranjada placa que indicava “Cinelândia”. Sorri brasileiramente.
E o metrô se foi, rumo à recordista de desembarque. Enquanto a voz mal-humorada e arrastada anunciava “Carioca”, o individualismo brasileiro latejante levava todos quase que por hipnose ás portas. Novamente, no reflexo destas, não pude deixar de perceber uma mulher que conferia rugas, quebrando com certo molejo seu pescocinho pro lado. No ritmo da vaidade, inclinei-me para checar o meu visual e voltei à posição inicial com a rapidez de quem lamenta ter demorado a ver o que todos já vinham vendo há algumas estações. E a mãozinha pelo rosto, juntamente com um bocejo forçado, transformava um jovem cansado, frustrado e digno de pena, num rapaz alternativo e moderninho, que faz cara de Robert de Niro para todo mundo e acredita ter personalidade quando modela o cabelo com o travesseiro. Graças a Deus e ao metroviário, abandonei esses pensamentos de supervalorização do invalorizável e pude voltar a pensar no alheio, assunto que, se não mais interessante por seu conteúdo, é mais pertinente por desviar o foco da discussão.
“Cheguei!” – pensou o subconsciente coletivo. O tranco da freada, contundente a ponto de ser considerado proposital, uniu as pessoas artificialmente e qualquer pedido de desculpas foi tão raro como o de licença. Na saída, passadas largas e pesadas promovem o vestibular das escadas, para o qual a única qualificação exigida é a malandragem na tomada da frente; “Isto é Brasil” – pensei, mas não estava na fila de um banco, tampouco me considero um legítimo Cronemberger. Fecharam-se as portas e, repentinamente, tudo era mais vazio. Em poucos segundos, mais estereótipos da estação vindoura organizavam-se para a saída Traziam nos olhos que espetavam a porta de saída a vontade incontrolável de chegar o mais rápido à rua da Alfândega, uma Meca para quem curte pechincha. Aquela senhora, que praticamente hibernava desde que a havia notado, arrumava da melhor maneira possível o vestido de viscose que moldava um corpo pouco contemporâneo. Sentiu-se realizada por ter conseguido encostar em alguém que estava imediatamente encostado na porta. Prata para essa vencedora. Conformado em ser o último a sair, isolei-me, observando a pressa dos que viviam fervorosamente a falaciosa idéia da “escada pouca, meu degrau primeiro.” Ao final de tão desgastante espera, subi sem pressa os derradeiros degraus da infinita escada. Olhei para o pulso procurando pelas horas que, inexistentes, lembraram-me do motivo de minha ida ao centro. Apalpei alguns reais no bolso e me perdi com certo atraso na multidão.

Friday, July 22, 2005

O tanto

Quantas vezes devo dizer
O que muitas vezes eu quis
Quantos quantos eu disse
Para dizer o tanto que vale
O tanto que é, o tanto que sela

Quantas vezes o quanto
Me disse o quanto
Você me quantificava
Tantas vezes o onde,sempre enquanto,
Me disse que eu te andava
Passeava, Corria
Tanto quanto nossas vontades
Tanto quanto aos nossos temores
vãos, por enquanto

Porque o quanto te amo
O quanto diz:
Te amo tanto
E o tanto vale o que vale
Advérbio de nossa intensidade
Tão logo chegue à unha de nosso amor
substantivo de intensidade

Wednesday, July 06, 2005

A mentira (não) tem olho roxo

Essa eu quero ver. Logo mais, o "top wood´s face" do momento estará com o Jô pedindo, com seu discurso sempre bastante apelativo, que alguém torne roxo seu outro olho. O despeitado deputado R.J. - cabe não citar o nome para não prejudicar sua imaculada reputação - estará mais uma vez dizendo ao mundo, e a Petrópolis, cabe lembrar, que não foge à luta, tendo coragem de enfrentar até a prateleira em que gurda com carinho a música de Lupcínio Rodrigues. Estarão em pauta assuntos inéditos como mensalão, CPI dos Correios e, crise do PT, tópicos que resgatam, com merecida saudade, os tempos "colloridos", os crimes pseudo-passionais e lembrança dos sortudos que sempre ganham na loteria. Ele, advogado criminalista, profundo conhecedor do crime(suas origens, circunstâncias e práticas) acredita que se tornará o maior mártir da política brasileira, enquanto a política brasileira acha que, não satisfeito em ser ladrão, o judas ainda quer anexar ao currículo o título esplêndido de "X9 pela Ordem pública". Seria louvável a dignidade de um homem que, conhecendo o que o povo sofre desde o Pós-ditadura, decide denunciar agora os outros só porque irremediavelmente já seria alvo de punição(ou não, caberia dizer caetanamente)? Moralismos à parte, verdade seja dita(pelo menos aqui): os brasileiros não estão mais preocupados em descobrir a verdade. O quanto antes, interessa encontrar o que é mais convincente para se acreditar. A estratégia de segmentação de "Rob Dedo Duro" deixaria Göebbels morrendo de inveja. Romper o paradigma, desvendar o trambique, apontar a delinqüência de luxo e expor as articulações clientelistas(Adoro Heloísa Helena!!!) não interessam, obviamente, ao nosso querido deputado. Posar como o bonzinho que tem vontade de fazer tudo isso já é suficiente para que o admiremos como o Messias, como o político sem precedentes que conquistou a sua vez. Ele é o "Rouba, mas fala", minha gente, uma adaptação demagógica do Maluf, mas sem ter construído túneis em Petrópolis. A verdade não é uma só nem nos livros de filosofia, quanto mais na boca dos congressistas ou nos dentes cerrados de raiva da cúpula governista do PT. Murilo Benício, em participação histórica no Programa do Faustão(quando foi mesmo?), proferiu uma frase que, na companhia em que estava, foi exaustivamente repetida como a pólvora do século XXI até que o público recebesse o sinal para aplaudir: "Eu estou acreditando em quem está mentindo." Caro Murilo, não admiro seu trabalho, tampouco seu potencial para aforista, mas sua colocação só não é mais pertinente do que reduntante em relação ao cenário nacional. Afinal, se não acreditarmos em quem está mentindo, só nos restaria acreditar em quem não está dizendo a verdade. Ou seja, o caminho é um só: Fausto é um bom apresentador, Murilo é esplêndido ator e a política é um poço de verdades. Não é, Jô?

Entre paredes um coração

Ele parou, olhou para o teto e temeu o pior. Afastou o olhar como criança, mas já adulto sabia o que devia encarar.O mundo era bastante para todos, menos para a sua inquietude. Os que temiam eram fracos e temiam mais do que soma de todos os seus medos. Não, não era fraco. Sabia disso, por mais que temesse o teto. Tentou as paredes. Fechadas, elas o aprisionavam ainda mais em seus medos, em suas doenças implacáveis. "Por que, teto e paredes, devo temer a verdade? Desabem se eu merecer, mas deixem me o gosto do real, o sabor do íntegro e o triunfo do saber. Ao menos vocês não neguem a dádiva do conhecer puro. Confio sim. A placidez com que me encaram é contundente." Convicto, já acreditava que o recinto em que diluía suas angústias era mais confiável que seu próprio coração: O maldito órgão que não enxerga o que a razão entre quatro paredes e um teto elucida. Sua reflexão era externa ao seu próprio desejo, porque seu pensamento pensava, mas não entendia o que o corpo queria fazer. A verdade, então, era uma faceta de uma mentira sinceramente inventada, de um "sim" que insistia em negar com furor de cientista, mas sem o sentimento de poeta. Como pensar de maneira tão pragmática o que estava sentindo ? Como pensar o que estava sentindo ? Como sentir o que estava sentindo ? O caminho sem volta não é para os tolos, mas para os apaixonados. Paredes e tetos testemunham.