"Recordar é escrever".
Ponte da Amizade
Mesmo não havendo a intenção de desmerecer o ônibus e sua relevância como transporte e, de certa forma, personagem urbano, o metrô revela-se um mais adequado retrato da dinamicidade contemporânea. É até comum, em documentários sobre grandes metrópoles, ao som do significativo hit Under Pressure, aparecer aquele desespero individualista, que é o correspondente macroscópico a espermatozóides em luta por fecundação. É nesse cenário(do metrô) que milhares de cariocas diariamente vivem momentos imediatamente anteriores à lida ou à execução de tarefas que compõem um atribulado cotidiano. E é visando a compor o meu que, numa Quarta-feira dessas, tomei a iniciativa de ir ao centro da cidade e comprar algo que me faltava. Na Uruguaiana, cuja qualidade e, muitas vezes, a origem do que é vendido justificariam a denominação mais adequada de “Paraguaiana”, creio que poderia alcançar meu objetivo. Em meu caminho, estava o metrô, uma Ponte da Amizade com ar-condicionado e livre de assaltos, pelo menos quando não se está comprando o bilhete .
Em todo caso, lá estava eu, enchendo um vagão semilotado. Em torno de oito horas, a rotina já dava “Bom dia” e, limpando cada remela como se fossem lágrimas de preguiça, cada carioca se lembra de que há uma realidade a ser vivida, para muitos, a ser vencida. As olheiras de fadiga nos rostos segundafeirizava os presentes e os fazia regredir de pessoas a triste e artificial condição de passageiros. A frieza de Matrix subiu-me pela espinha e desviou o meu olhar antes fixo no nada ou em algum ninguém. Notei, então, a senhora de pé ao meu lado. Com várias bolsas e uma mala falante que tinha lá seus sete anos, olhava para o além, parecendo meditar com o arranhar nos trilhos. O menino, não menos distraído, olhava-me de maneira vacilante enquanto cantava algo ininteligível. O trecho, por menor que seja, é sempre tedioso e equivale a um andar horizontal de elevador, sobretudo pela indiferença das expressões faciais que deixam o ambiente com um vácuo desagradável. Do meu outro lado, um homem de terno e de gel, engravatado de orgulho e lamentando por estar andando de coletivo, observava-se narcisicamente no reflexo negro da porta fechada. Enquanto o metrô preparava sua parada na estação, vi seu pedantismo wallstreetiano ser quebrado pela visão de uma subdesenvolvida e alaranjada placa que indicava “Cinelândia”. Sorri brasileiramente.
E o metrô se foi, rumo à recordista de desembarque. Enquanto a voz mal-humorada e arrastada anunciava “Carioca”, o individualismo brasileiro latejante levava todos quase que por hipnose ás portas. Novamente, no reflexo destas, não pude deixar de perceber uma mulher que conferia rugas, quebrando com certo molejo seu pescocinho pro lado. No ritmo da vaidade, inclinei-me para checar o meu visual e voltei à posição inicial com a rapidez de quem lamenta ter demorado a ver o que todos já vinham vendo há algumas estações. E a mãozinha pelo rosto, juntamente com um bocejo forçado, transformava um jovem cansado, frustrado e digno de pena, num rapaz alternativo e moderninho, que faz cara de Robert de Niro para todo mundo e acredita ter personalidade quando modela o cabelo com o travesseiro. Graças a Deus e ao metroviário, abandonei esses pensamentos de supervalorização do invalorizável e pude voltar a pensar no alheio, assunto que, se não mais interessante por seu conteúdo, é mais pertinente por desviar o foco da discussão.
“Cheguei!” – pensou o subconsciente coletivo. O tranco da freada, contundente a ponto de ser considerado proposital, uniu as pessoas artificialmente e qualquer pedido de desculpas foi tão raro como o de licença. Na saída, passadas largas e pesadas promovem o vestibular das escadas, para o qual a única qualificação exigida é a malandragem na tomada da frente; “Isto é Brasil” – pensei, mas não estava na fila de um banco, tampouco me considero um legítimo Cronemberger. Fecharam-se as portas e, repentinamente, tudo era mais vazio. Em poucos segundos, mais estereótipos da estação vindoura organizavam-se para a saída Traziam nos olhos que espetavam a porta de saída a vontade incontrolável de chegar o mais rápido à rua da Alfândega, uma Meca para quem curte pechincha. Aquela senhora, que praticamente hibernava desde que a havia notado, arrumava da melhor maneira possível o vestido de viscose que moldava um corpo pouco contemporâneo. Sentiu-se realizada por ter conseguido encostar em alguém que estava imediatamente encostado na porta. Prata para essa vencedora. Conformado em ser o último a sair, isolei-me, observando a pressa dos que viviam fervorosamente a falaciosa idéia da “escada pouca, meu degrau primeiro.” Ao final de tão desgastante espera, subi sem pressa os derradeiros degraus da infinita escada. Olhei para o pulso procurando pelas horas que, inexistentes, lembraram-me do motivo de minha ida ao centro. Apalpei alguns reais no bolso e me perdi com certo atraso na multidão.
