Wednesday, November 02, 2005

Music: just do it

Todo mundo tem uma música. Aliás, sendo muito mais preciso, todo mundo tem várias músicas, para vários momentos e sentimentos. Quando a letra não interessa, mas a melodia fala por tudo, ou quando a letra, numa música desconhecida, nos pega desatentos em relação ao mundo, precebemos invariavelmente que algo parece ter sido cantado para nós. Esta semana, ganhei uma fita de vídeo do Van Halen, uma banda conhecida por um rock meio "farofa" e fanfarrão, mas que produz um som animado e explosivo, como bem ilustra a música "Jump", afortunadamente aproveitada para tema das extintas Olimpíadas do Faustão. Eis que na cozinha, absorto em meus pensamentos, reparo na música ao fundo. Nunca a tinha escutado, tampouco acreditaria que pudesse ser do Van Halen, muito menos que ela pudesse produzir algum sentido em mim. A letra falava sobre "aliens", mas o assunto, claro em seu título, era bastante humano. Estava ouvindo "Love Walks in". Via aqueles metaleiros adaptando suas características violentas a uma melodia covardemente tocante. Parecia que tinham decidido parar de ser maus, "badboys do barulho", predispondo-se a amar. O holandês Eddie Van Halen, considerado um dos maiores guitarristas da história, deslizava sua mão pelo teclado como se lembrasse de sua primeira namorada. Seu irmão, Alex, tocava bateria com pudor, como se fizesse a coisa mais solene do mundo. O agitadíssimo baixista Michael Antony fazia o back vocal como se cantasse pela última vez em sua vida, e Sammy Haggar, outrora - no show, inclusive - um metaleiro enlouquecido em sua música xiita, fazia da música, com a rouquidão de sua voz, um hino. O que aconteceu a eles? O que Gene Simmons, baixista do endiabrado Kiss e um dos grandes responsáveis pela projeção a que chegou o Van Halen, acharia daquele envolvimento que eu estava presenciando? Fiquei emocionado, quase como se visse um israelense abraçando um palestino, ou um flamenguista chamando um vascaíno para jogar futebol, no lugar de prestigiar de maneira radical os profissionais que não merecem atenção. Por mais que o rock pesado continuasse dali em diante, estava admirado com o fato de, em um momento ao menos, eles terem aberto espaço, no repertório e na vida deles, para algo mais sublime, mais digno de reflexão. A música é a porta da alma. Ela quebra aquela frieza das palavras escritas, humanizando-as pela voz proferida e por um som expressivamente pensado. Tive vontade de nascer Chico ou Cazuza. Ou de ser Van Halen, pelo tempo em que ouvi e pensei minha vida ao lavar um prato.

1 Comments:

Blogger acrosticando said...

".....o pensamento parece uma coisa atoa, mas como é que a gente voa..." ao estar na cozinha... ao lavar lavar um prato...., imagine eu, sua mãe, qd estamos caladas, na beira da pia... do fogão....geralmente, a noite, dp de um dia de trabalho, o filme do dia passa todo em nossas cabeças, pensando que fazemos aquilo por que amamos demais "incondicionalmente", são "...reflexos e reflexões...", né Priscila ?

November 03, 2005 3:48 AM  

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