Tuesday, October 25, 2005

A ideologia

Ideologia é aquela coisa semi-carcumida, mal resolvida, que o Cazuza cantava entre dois picos de consciência.
É aquela teoria do abstrato sem extrato ou cobertura, que cada um chama para si como se pudesse escolher sabores infinitos para um sundae de apenas 4 reais.
É o barato que se vende e se compra em qualquer loja, boteco, e se traveste de um milhão de pesos em uma só medida.
É a vida que os loucos escolhem, o simbólico que falta à sua carência de sentido no mundo e à carência de mundo em seus sentidos.
É aquela maluquice marxista de dizer que trabalhador tem poder, de acreditar no PT, de jurar que mensalão é necessidade democrática.
É o sonho de todo infeliz, que bate com o carro no poste ou com a cara na mesa do bar e não sabe o que é amar, ou amar menos do que foi capaz.
É ser xiita de espírito e fundamentalista de opinião, negando aos outros o direito de ser exatamente o que todo ser humano é por essência: individualista.
A ideologia, enfim, é o espaço de que todo mundo precisa para ter esperança e a esperança de que todo mundo precisa para ter um espaço.

Thursday, October 20, 2005

A arma do povo

- Cara, e essa discussão sobre o desarmamento que está rolando?
- Pois é, muito polêmica, né?
- Você é a favor?
- Quer saber se eu voto "sim"?
- É.
- Não. Eu voto "não".
- Por quê? Quer dizer que agora você é a favor da violência?
- Nada disso. Ninguém, em princípio, é a favor da violência. A violência é simplesmente um ato, um meio arbitrário e individual pelo qual se busca, muitas vezes inconseqüentemente, a concretização imediata de um objetivo ou de uma idéia particular.
- E daí? Por isso você vota "não"?
- Eu voto um "não" mais abrangente, um "não", aliás, que vai de encontro a esse referendo propagandista, que reduz a violência a uma perspectiva maniqueísta e simplista. As pessoas chegam a achar que quem vota pelo "sim" vota pela paz, e quem vota pelo "não" quer a perpetuação da violência ou intensificá-la.
- Não é possível que você ache que a violência não vai diminuir...
- Ela pode diminuir. Matematicamente talvez. Mas muitos ainda morrerão para isso.
- Então não cabe tentar esse mínimo passo, por mais que morram algumas pessoas?
- Não se exclua da possibilidade de você ser uma dessas pessoas que vão morrer até lá.
- Agora você vai me dizer que quem tiver uma arma em casa não corre o risco de morrer, num assalto, por exemplo? Ter arma é saber atirar por acaso? Valeria a pena reagir e colocar a própria vida em risco, ou a da própria família.
- A escolha pela reação ou pela postura assumida diante dessa situação é simplesmente individual. Armados ou não, muitos já morreram reagindo a assaltos, e alguns já lograram êxito, heroicamente, em sua reação. O interessante, em vez de se restringir a casos específicos, como os dos filhos de pais irresponsáveis que matam o colega na escola ou brincam de "roleta russa", é se predispor a analisar o problema da violência em sua real dimensão.
- Nessa "real dimensão" existe melhor caminho para acabar com a violência do que tirar a arma das pessoas?
- Acredito que sim. Tirar a arma dos delinqüentes é um caminho melhor, não acha?
- Mas isso é impossível de ser feito...
- Será possível desarmando todos, então?
- Não temos como mensurar quem é bandido e quem não é a ponto de determinar ou especular que uso será feito da arma.
- Quer dizer que, já que não temos, punimos todos, então? Ninguém poderá ter arma porque existem elementos maus que a utilizam mal? Daqui a pouco não poderei usar faca em casa porque serei terrorista e poderei, por exemplo, seqüestrar um avião e jogá-lo contra o Empire State. Vou ter que cortar legumes com os dentes agora, isso se não acusarem minha arcada dentária de um instrumento letal em favor da violência.
- Não seja exagerado. São coisas diferentes. Para que, a não ser a violência, alguém usaria uma arma?
- Para se matar, por exemplo. Ou ele não poderia? Quem impediria ? Ou não poderia também, em determinada circunstância, dar um tiro no delinqüente que está assaltando a sua casa.
- Você está usando exemplos restritos. Você está achando que usar arma é brincadeira... Você acha que tem habilidade para usar uma arma?
- Não. E a maioria não tem. Traficantes e assaltantes se credenciariam ou comprariam uma arma em alguma loja? A propósito, sobre a brincadeira, é justamente por reconhecer sua importância que não gostaria de que fosse subtraído de mim o direito de usá-la.
- Mas vai tirar a arma de quem pratica a violência também.
- Vai ? Quem garante ? O referendo ? A polícia ?
- Quem vai acabar com a violência, então? Quem andar armado?
- Você chegou a um ponto crucial. O "sim" ou o "não" não acabarão com a violência. A violência é uma prática social, passiva de punição pelos aparatos estatais. Se a coibição da violência não acontece, tirar a arma de todos adiantará?
- Opa! Há certa incoerência aí! Se você acredita na ineficácia do aparelho de Estado e que o referendo não terá alcance para tirar a arma dos bandidos, por que temer que as armas serão proibidas a todos?
- Porque sou honesto e, como eu, várias pessoas gostariam de ter, legalmente, armas em casa, distantes dos filhos e longe de qualquer perigo, cogitando sua utilização somente quando necessário. As pessoas têm o direito de decidir, já que o estado não intercede por sua segurança. O 190 dá até ocupado...
- As pessoas não podem decidir se não estão preparadas para lidar com a violência.
- Quem está preparado para a violência? De onde vem a violência? Como ela vem? Nos EUA, crianças foram mortas em sala de aula, e rifles são distribuídos para quem abre contas em bancos. O estado reprime a violência até com pena de morte, mas isso não afugenta ninguém. Se, no Brasil, país em que a segurança plena é utópica, um cidadão, desamparado em nível social, econômico e político, não puder decidir se mata o assaltante, se tenta matar ou morrer por isso, se assiste passivamente ao espancamento de seu filho ou mulher durante um assalto ou se fica quieto com medo e, no final do assalto, após ter perdido tudo, vê toda sua família morta na sua frente antes de ser igualmente executado, sua existência não fez sentido, porque sua atitude estava subordinada às normas do estado, que nada fez, poderia fazer, ou fará. A democracia se fere quando a individualidade não é respeitada. Isso é mais do que uma questão política: é uma questão humana. Todos, dos vendedores de arma aos que propuseram o referendo em favor do "sim", estão sujeitos à violência e desconhecem seus próprios limites quando essa invade seu espaço, desrespeitando tudo de mais importante que se tem: a própria vida e a vida das pessoas amadas. Quem faz na mão a "pomba da paz", quem é declaradamente contra qualquer tipo de violência, e até quem admira Gandhi, seria capaz de matar para sobreviver ou viver. O que você faria?
- Não tenho tendência à violência, mas depende da situação.
- Então não faz sentido votar pela perda de um direito. O "sim", cabe dizer, é uma teoria magnífica. Que lindo seria se tivéssemos a chance de nos desentendermos, trocar socos ou, no máximo, pedras ou facas! O problema é que o crime é covarde, te pega desprevenido e sem armas. Se não fosse com essa vantagem, ele não compensaria. Que pessoas(bandidos) se aventurariam a invadir a casa de alguém para assaltar e matar? Elas têm o ônus das armas, e se sentem impunes ao planejar suas crueldades.
- Não caberia o desarmamento então?
- Caberia puni-las, porque as armas não funcionam se não houver uma mente problemática determinada a apontar um revólver para alguém e puxar o gatilho. Se eu morrer porque jogaram uma pedra na minha cabeça, o estado teria de tirar as pedras da população?
- Não confunda revólveres com pedras!
- Não confunda violência com seus instrumentos potencializadores. Que exista uma lei eficaz e coercitiva, que penalize todo aquele que utilizar pedras para agressão, em vez de, por exemplo, usá-las em construções.
- Você é contundente. Mas eu ainda acho que uma arma é um símbolo da violência.
- O maior símbolo da violência somos nós, em nosso individualismo e em nossa mediocridade moral e ética. Se sabemos que vivemos para desrespeitar, que criemos uma sociedade que bem imponha limites.
- Tenho de concordar. Por mais que eu vá votar um "sim" pela vida no dia do referendo, enxergo coerência em seu raciocínio.
- Eu também digo "sim" à vida. Digo também "não" à violência. Entretanto, tirar de mim uma possibilidade mais justa de querer escolher o que farei em minha vida – mesmo o direito de morrer - é uma violência. A violência, de fato, gera a violência, mas quem é contra ela nunca deve ou vai deixar de lutar por sua dignidade e por sua bandeira de paz. Quem mata para sobreviver mata pela vida. Essa é a lei de uma selva chamada Brasil.

Produzi este texto com a cabeça muito aberta, superando tabus e preconceitos meus. Cada lado da moeda tem suas vantagens, mas, em meu conhecimento superficial de mim e da maldade que habita os corações humanos, admito que protegeria minha família de qualquer maneira. Ser pela paz não é ser vulnerável.

Sunday, October 02, 2005

´Pela diferença

No dia em que todas as pessoas deixarem de usar ´no dia em que todas as pessoas´ em suas máximas, o mundo será melhor.