Wednesday, November 16, 2005

Um clichê básico

Poder e liberdade aparentam ser mutuamente excludentes. Isso porque, muitas vezes, o poder é simplificado ao exercício da força, e a liberdade, conceito deliberadamente dilatável, transcende seu caráter humano para beirar a fronteira da libertinagem. A democracia, no entanto, pressupõe uma associação ponderada entre esses conceitos, definindo sua linha de atuação para os interesses do povo. Quando analisamos o contexto brasileiro, percebemos qual caminho tem assumido a noção de poder e que uso tem sido feito da liberdade, sobretudo em relação à política externa e à construção de uma identidade global em face de outras nações e estados. Cabe refletir em que medida a associação entre esses pode construir uma soberania que, mais do que suplantar a importância de outros países, como faz o maniqueísmo norte-americano, consolide nossa auto-suficiência em um espaço justo dentro do processo de globalização.
Muito antes de o clichê comodista "Brasil: país do futuro" ser repetido exaustivamente nos primeiros anos de efetiva(sic) democracia, um país com um passado esquecido e com um presente inalcançável ainda sonhava em concretizar uma utopia política, social e econômica coerente com sua sempre proclamada grandeza natural. Todavia, nosso potencial para ser grande não se era gigante como nossa própria natureza e, na conjuntura atual, tudo em que acreditamos passou a ser tão obscuro quanto o futuro tão sonhado. A liberdade com que tanto se sonhava passou a mascarar uma opressão ferrenha que, sob a lógica capitalista, nos relegou à condição de terceiro-mundo, fazendo-nos cair num paradoxo ideológico: somos melhores ou piores?
Muito provavelmente, nos enxergarmos melhores pode ser tão pior que inferiorizar o que temos de melhor. Nossas riquezas, o petróleo nosso(e a nossa refinaria), e a magnitude cultural que nos singulariza, de fato, nos fazem presos voluntários e orgulhosos ao nosso país . Entretanto, nem todos os sabiás têm gorjeado em português em nossas terras, e tampouco todas as nossas palmeiras têm estado fortes o suficientes para suportar ventos(e tornados) da globalização. A identidade cultural necessária à liberdade legítima sobre a qual o texto fala não encontra estímulo político-econômico ou
respaldo social para sustentar sua grandeza. Nossa mistura é forte, mas quem se interessa por entendê-la ou valorizá-la? Nem quem vos escreve se admite pró-brasileiro o suficiente para viver sua inegável brasilidade...
Em contraposição ao nosso ateísmo patriótico, assistimos ao resplandecer de China e Índia, grandes promessas(que em breve muito provavelmente serão cumpridas) no contexto geopolítico multipolar. Não são países como a Utopia, de Thomas More,
portanto, são repletos, em diferentes proporções, de problemas como os nossos, ou até mais graves. São nações em que latejantes conflitos internos, como demografia ou disputas étnico-religiosas, vitimam milhares de pessoas que acabam excluídas do mundo sem ao menos ter consciência do que seria o país em que vivem ou, meramente, do que seria um país – isso também acontece no Brasil. Mas qual seria a diferença básica entre o aproveitamento de suas capacidades como nação e a inércia que caracteriza a evolução quase estática do Brasil como estado? Poderíamos atribuir à liberdade o estereótipo de causa do sucesso? Complexo. Seria fácil atribuir ao determinismo religioso do hinduísmo as causas da miséria dos indianos ou ao socialismo de estado (semi)democrático chinês a causa para o cerceamento da liberdade individual e coletiva. Não seria fácil, contudo, entender por que essa liberdade brasileira, que tanto nos soa bem, que tanto nos faz olhar para o Oriente com ar de superior, não faz de nós melhor e um povo mais consciente, posto que não estamos subordinados a nenhum aparelho político ou religioso legitimamente coercitivo, como os da Ditadura declarada de décadas atrás. Nenhum tratado, em face das gritantes diferenças entre esses três países, seria capaz de ser categórico conclusivo. Nossa multiplicidade complexifica nossos problemas.
Percebemos, então, o quão falsa é a sensação de liberdade proporcionada por essa idolatrada democracia. Temos vergonha de olhar para o mundo e ver que nossos vãos esforços percorrem erradamente o melhor caminho. Verificamos que nossa indisciplina como cidadãos e brasileiros contrastam com os critérios muito bem estruturados das sociedades orientais: dignidade, desenvolvimento social e econômico atrelados e, sobretudo, respeito. Esse último, princípio básico de qualquer religião legítima, revela nosso maior déficit, ao passo que em nossa imensa gama cultural, vemos a froteira entre diversidade e desigualdade sendo diluída. No Brasil, a riqueza econômica tem definido nossos rumos sociais e políticos, usando como mola aqueles que deveriam gozar dos mesmos direitos de uma elite parasitária e individualista. Nossa reforma interna ainda será utópica enquanto estivermos olhando para fora e para dentro do país sem o tom crítico com que deveríamos avaliar nossa própria consciência individual. Que nossa liberdade individual seja repensada a ponto de torná-la um ideal e um bem coletivo, socialmente congruentes e concretos. "Isso aqui é Brasil". Que essas frase saia das filas de banco e chegue orgulhosamente ao mundo.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Nice Blog!!!   I thought I'd tell you about a site that will let give you places where
you can make extra cash! I made over $800 last month. Not bad for not doing much. Just put in your
zip code and up will pop up a list of places that are available. I live in a small area and found quite
a few. MAKE MONEY NOW

November 16, 2005 2:36 PM  
Blogger acrosticando said...

Filhote (te adotei desde o brejo)-
tem lido o que o "anônimo" aí de cima tem escrito ?
Se a resposta for "sim" comente por uma forma qq - qd tiver tempo -
Esse mundo virtual tá de olho....

November 18, 2005 3:36 AM  
Blogger acrosticando said...

.....visto sua "doxografia", visto que és vestido de novas palavras que inventas, que nem Guimarães Rosa....

November 18, 2005 4:16 AM  

Post a Comment

<< Home