Saturday, June 04, 2005

Princípios da Dinâmica: fins da vida

Esse post traz lembranças convenientemente esquecidas de submatérias que roubavam o tempo a ser dedicado ao estudo(bem mais profícuo) das Ciências Humanas. No entanto, elas, se não foram, devem ser convenientemente esquecidas. Ai, ai, Pessoa, "Redundar é preciso..."Esse não é o comercial do Banco real, mas é uma singela publicação do que respondi em uma dinâmica de grupo da qual participei há pouco. Pediram-me que criasse uma espécie de jornal que sintetizasse um pouco de mim. Entre coisas outras, uma manchete deveria ser criada, uma espécie de "lead of life" capaz de reduzir ainda mais nossa limitada existência.No final das contas e do tempo, atrevi-me a dizer que "o sentido da vida é o sentido que se dá a ela". Se esse aforismo arrepia pela vaguidão ou simplesmente não faz sentido, seu sentido já está pronto, e seu critério de vida, devidamente estabelecido. Não somos escravos das circunstâncias, inferi. Muito pelo contrário: as escravizamos. Criamos o mundo que cabe em nosso egoísmo, o mundo que funde nosso eu à vã vontade de ser alguém em vez de sermos simplesmente o que somos. Acho que é uma explicação deveras reflexiva. Estática demais para uma dinâmica de grupo. Temo pela solidez do pragmatismo petulante das psicólogas e pela necessidade voraz que faz com que nos submetamos, como arlequins em busca de atenção, ao que a entidade demoníaca chamada "mercado de trabalho" estabelece como paradigma para nossa inserção em seu contexto rotulador. É simplesmente chata a anulação da individualidade nas entrevistas em que, não se sabe como, almeja-se sobressair-se pela diferença, mas se teme que a ausência de igualdade fuja de maneira hedionda aos parâmetros de normalidade. Por que todos dizem que adoram "desafios", que acham a sua profissão a melhor do mundo e que sempre sonharam em trabalhar na empresa que os submete à humilhação de um processo de seleção superficial e injusto? É muita vontade de resistir a si próprio ou é falta de vontade de ater-se ao que realmente faz diferença nessa vida? Vão-se as entrevistas, ficam os dedos que contam hesitantes quantas pessoas transbordam a pessoalidade feliz e aprendiz de Gonzaguinha. Meu blog, sempre muito sincero, notifica-me de um certo recalque, sobretudo porque não passei na entrevista. Mas sou recalcado mesmo, e digo com tom suburbano porque não nego minhas origens apesar de lamentar meus fins no mercado de trabalho: uma peça de uma engrenagem fordista, desprovida de vontade ou potencial criativo, submetido a ditames capitalistas que deixam o futuro como meu carro-chefe: negro, produzido para refletir os que se vêem, mas não o que é para ser visto. Nunca pedirei perdão, exceto em ocasiões em que a ironia me turbinar a língua, de dizer que não deveria ter sido eu. É o caminho menos trabalhoso de ser feliz. Eu não reclamo. "Eu" não reclama.

2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Pippe, não se lamurie. Lembro de alguns processos dos quais participei. Teve um que foi muito curioso, pois uma das etapas consistia em uma espécie de exame psico(-)técnico. Havia uns desenhos dentro de uns quadrados e eu devia completá-los e depois dar a títulos a eles. Recordo-me que um dos títulos que dei foi "Teste Pseudo-técnico". Obviamente, não passei. Mas me diverti deveras, pelo menos. Tempos depois, conversando com uma amiga minha que fazia psicologia, ela me explicou que esse tipo de teste tinha um nome e cada desenho media uma aptidão do candidato. Quando contei o que havia feito, ela me indagou: "Mas por que você fez isso? Não queria passar?" Não lembro o que respondi. Mas hoje vejo que realmente o meu sonho não era trabalhar naquela empresa e tampouco a profissão de jornalista é a melhor do mundo. Mas eu adoro desafios. Abraços saudosos, Lauro.

June 05, 2005 9:07 PM  
Blogger StraTAG said...

O que está em jogo são os processos seletivos da vida em geral, em uma época em que essa entidade diabólicaca desconhecida(seria o ultragrupo neoliberal supra-sumo??) domina as mentes igualmente desconhecidas. As pessoas têm é de se conhecer melhor. Esse e o cerne. Personalidade é mais difícil nessa idade p/ se criar, porque é um processo contínuo e faz parte da formação do indivíduo. Mas auto-análise é possível e extrememente necessária. E está em falta no mercado.

June 26, 2005 9:16 PM  

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